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Três traços para o “Traço” do Max

por Thiago Pereira

Não se engane: atenção ao dobrar essa esquina. Este que você tem em mãos- ou no ouvido- é apenas um dos traços que compõem a figura do Max Henrique

Esse fantoche simpático (feito pelo artista plástico José Armando Filho) na capa do disco é também apenas outra linha biográfica, do Max artista plástico e visual; designer gráfico; pesquisador acadêmico voltado para o mundo das imagens. Os traços de Max trançam em diversas mídias, espaços, territórios: toda mão é nó, como ele canta na linda “Até Agora Nada”.

Assim ele se espalha em projetos musicais, como o eletro Miniluv, até tensionamentos de design gráfico, deliciosamente bem tratados em seus muitos videoclipes.

Portanto, seu próprio nome nos faz suspeitar, Max são muitos, como pede a etiqueta do mundo contemporâneo. É múltiplo, abarca muita coisa: Max se exercita, em boa parte de seus projetos, ao design do self, em imagem e ação, narração e representação, letra, tinta, música, vídeo.

Tudo muito bom, tudo muito bem, estilhaços superbacanas. Mas, cá entre a gente, não adianta ser múltiplo se não for, bem, bom. Instigante, convidativo, como ele mesmo nos provoca/ pergunta: Bem vindos todos a essa nova trapaça?                                                                                                                    

Mas “Traço”, seu disco de estréia, é longa linha feita em mão firme. Uma bela e necessária extensão de sua criatividade.

Talvez porque, como ele assume, é seu lado mais intuitivo, menos cerebral, mais íntimo, é onde ele mora. Atrás de toda a foto/selfie/pose, está o artista e aqui o artista está nu, subjetivamente falando: trata-se de um trabalho daqueles internos, onde, o que é exposto é, bem, uma versão mais próxima dele mesmo. Polaróides fonográficas em suas contradições de rock e eletrônica e música brasileira; em suas tradições líricas, de amores tediosos, de ódio criativo. Diversão-desespero.

Se ele praticamente mora na rua, se é essa sua privacidade, como assume no “Vento”, que abre o disco, somos chamados, portanto, a andar com ele nestas onze faixas. Enfiemos a cara na rua, na noite, nos outros.

No passeio, (um pouco de) tudo pode nos alcançar.

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A guitarra/ violão que anunciam o começo da caminhada, em “Vento” semeiam alguns dos diapasões estéticos do Max: “Agora tudo pode me alcançar”. E vamos indo, do balanço sutil de “Bem Vinda”, carta de intenções que mais confunde que orienta, feito Alices no país das (des)maravilhas (para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve) aos (com)passos mais desacelerados de “Até Agora Nada”, certo amargor no trajeto, percepções imediatas: “Hoje toda boca é limpa/ Toda pele é lixa/ Todo beijo é só

E Max sai fotografando, um pouco voyeur de nós, muito de si. De repente se vê no meio do “Carnaval”, onde ninguém se preocupa em escutar nada. Possível rock central do disco é canção exemplar do lirismo afiado do cantor, equilíbrio perfeito das linhas que percorrem versos e guitarras. Mas ainda é muito cedo para recuperar a saliva perdida, naquele beijo solitário do parágrafo anterior, lembra?

Então sai anotando, feito diário, tarefas de aperfeiçoamento pessoal durante um riso histérico em “Sensatez”: “Não posso ser mais cético/ Mas posso me convencer a ser mais impulsivo”. Afinal não existe problema que não possa ser resolvido com a quantidade certa de explosivos, diz, sabiamente o artista. “Toda guerra é meu objetivo”, completa. E centra fogo em tocar esse violão, pra acalmar, para se sentir como os “homens que desarmam bombas”, assume, mãos sujas de pólvora e groove, na faixa-título. De repente se descobre e, quase como acidente, nos descobre também: Max se desenha com os dedos pelo ar: mora no seu traço!

Só confirma que, mesmo com o disco rodando redondinho quase pro fim, ainda estamos nas ruas, tecendo nossas geografias pessoais, com os olhos bem abertos- talvez abertos demais, como suspeita em “Diversão Desespero”; “Tomo espaço por mim, abro passagem sem fim/ Onde cabem muitas perguntas, as teses ficam todas assim” sumariza a deliciosa “Cáries”, um dos pontos altíssimos do trabalho. “Meus olhos já não alcançam mais/ Já não tem fim”.

Percebe-se que a linha segue solitária, independente, avulsa das mãos. “Traço” aberto no espaço.

O que resta? Parar, pensar, quase filosofar, como sugere a elaborada “Agora Nunca”. “Agora e antes, os tempos ao mesmo tempo”, e tanto faz se essas distâncias se apresentam em horas, anos, frames, metros, bytes, beats. Estamos indo de volta para casa, mas nunca vamos dormir, garante Max, o notívago incurável. “Todo dia eu perco a hora, o tempo, o brilho. Todo dia eu perco um dia, um sonho, um filho”, faz as contas finais em “Todo Dia”, sem olhar para trás, reconhecendo que é melhor estar fora do abrigo.

Fica aí nas ruas/ouvidos, nos olhos/lugares esse “Traço”, marca autoral, inapagável do Max Henrique.

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E eu, espião do espião; eu que percorri meio escondido o “Traço” que o Max foi deixando, mereço um mini-traço final?

“Que passeio. Que disco. Que letrista. Que artista”

Ponto final? Só que não. Para você, o “Traço” está só começando…